sexta-feira, 11 de março de 2016

Não quero estes olhos, penetrantes, perscrutadores, em constante desassossego.
Quero outros. Quero-os míopes, opacificados. Quero-os ligeiros e frívolos.
Quero um outro olhar. Passivo, superficial. Quero-o magro, fugaz. Crente.
De que me servem estes olhos se me mostram o que só eu vejo? Para que os quero se me levam por escaladas impossíveis, me conduzem a caminhos sem retorno numa esmagadora solidão ?

domingo, 6 de março de 2016

Horas...

A casa em silêncio. A cidade dorme. E eu vagueio sem saber que destino tomar. As horas passam. Não as sinto.
Um a um vão despertando os passarocos. Acordam alegres, saltitantes, palradores.
Invade-me uma profunda tristeza quando a vida recomeça. Não encontro sentido nos meus dias.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Não encontro a minha cidade encantada porque não tenho rumo, não me acho. Amo as cidades dos meus amores, por onde se passeiam e respiram, por serem suas. Nelas, sinto-os, busco-os a cada passo, em todos os recantos. Imagino os seus sonhos, as suas alegrias, as lágrimas. Velo os seus sonos. Nenhuma é minha por não ser de nenhum. Sinto-os em mim e não me sinto em ninguém. Não há quem me abrace por inteiro, me alcance a alma. Sou fugaz. Um fruto de casca rija. Impenetrável, contudo, sem eles não valho nada, não vivo.

terça-feira, 5 de maio de 2015

"Dizia que uma flor bastava e sorria. E nós íamos pelo campo, inocentes, à procura de uma para lhe darmos. Quando encontrávamos a que nos parecia mais bonita e viçosa, vínhamos a correr pela frescura, gritando de alegria pelo nosso ato, a ver quem chegava primeiro para lhe entregar o troféu que ela merecia. Púnhamo-nos aos saltos à volta dos seus olhos, para que reparasse bem nas nossas flores, e não descansávamos enquanto ela não as aceitava, desfazendo-se em sorrisos e agradecimentos. Depois, voltávamos aos pulos para a brincadeira e já não reparávamos na lágrima fina que lhe rolava pela face enquanto ia ajeitando num vaso as nossas flores apressadas como se fossem feitas do mais puro cristal."

Mil Ghent

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Recordou a primeira vez que ali entrara. Era de noite e fazia um frio de rachar. Viu uma sala com paredes ocre, um sofá velho e surrado, de gosto duvidoso. Em cima da mesa, nas cadeiras e pelo chão, na outra ponta da divisão, deparou-se com um amontoado de caixas de cartão, umas abertas, outras por abrir e ainda outras tantas vasculhadas, numa perfeita revolução. Por estranho que lhe parecesse a atmosfera era acolhedora. Talvez fosse a luz das velas que a tornasse assim. Olhando ao seu redor num instante em que ficara só percebeu de imediato o quão destruído devia estar quem habitava aquela sala. E no entanto esmerara-se espalhando velas aqui e ali. As paredes tinham ficado nuas ou talvez sempre assim estivessem estado, à excepção de quatro fotografias dispostas, por ventura premeditadamente, muito próximas umas das outras, lembrando um abraço.
No caminho, pensara que devia estar louca quando aceitou o convite. Meter-se assim à estrada, de noite, para se encontrar com alguém que apenas vira uma vez. Seguia as indicações que lhe tinham sido dadas sem saber bem para onde ia. Ninguém sabia do seu encontro. Seria uma insensatez sem tamanho não fossem aqueles olhos. Pensou neles e sossegou. 
Saiu de madrugada. Ilesa. Por companhia levava o olhar triste e doce que ficaria a aguardar o seu regresso àquele casarão vazio com uma sala com paredes ocre.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Começo do recomeço.

E de repente não valho nada.
Consigo mover montanhas mas a força para as arrastar não é minha vem de ti, do amor. Tudo me chega porque existes. Sem ti seria pó, à deriva, vagueando pelos campos, sem norte ou destino.
Não me vejo sem te ver. Todos os meus passos me levam a ti, sem que me notes. Não precisas saber que te sigo a todo o instante, que te observo e escuto sem que dês pela minha presença.
As tuas mãos falam-me de ti. As frases mais curtas que pronuncias permitem-me seguir-te a alma. Olho para ti e desvendo-te o coração.

Mãos



- The hand is the cutting edge of the mind. - Jacob Bronowski in: The Ascent of Man, 1973

- Hands, after the face, are the most obvious part of the human body for expressing emotion. - Henry Moore - Writings and Conversations

- Le plus grand bonheur que puisse donner l'amour, c'est le premier serrement de main d'une femme qu'on aime. - "De l'amour" - Stendhal



terça-feira, 15 de julho de 2014

Diário de uma louca


Despedira-se.
Esgotadas todas as possibilidades, nada restava. Nada poderia fazer, nada mais havia para dizer. Definitivamente era o fim. Teria que ser o fim. Tentara que aquele fim fosse outro fim. Fracassara redondamente. Gastas as alternativas, gastas as palavras, gastas as dúvidas e, acima de tudo, gasta a energia e a vontade... a paciência, talvez!
Não poderia lutar mais contra a corrente, sentia que não saía do mesmo lugar. Tentara uma e outra e outra vez, nada acontecia. Fosse qual fosse a abordagem, a resposta era sempre a mesma: chegava seca, fria, insensível, quando chegava. A maior parte das vezes não chegava nada. A última fora decisiva. Absurda! Não conseguira entender se era a frieza, gélida, assustadora ou a infantilidade que ditaram as últimas palavras. Fosse como fosse pararia por aqui.
Durante muito tempo mantivera-se na dúvida e fora justamente a dúvida que a fizera persistir. Sem quaisquer incertezas agora, chegara o momento de tomar outro rumo. Colocar naquela história um ponto final. Aquilo que evitara fazer, que se negara a fazer. Sentia, por isso, uma profunda frustração, uma enorme impotência e isso consumia-a, irritava-a, revoltava-a ao ponto de a deixar com uma incontrolável vontade de se insurgir, de gritar. Poucas vezes lhe acontecia ter vontade de gritar, contudo, a sensação clara e nítida de que as suas palavras não encontravam qualquer eco, como se falasse para o vazio, causaram-lhe uma necessidade quase absoluta de teimar em repetir vezes e vezes sem conta até ser ouvida, até que sentisse que a escutavam, numa insistência despropositada e sem sentido. Poucas coisas abalavam tanto a sua calma como aquilo.
Era o reviver de um passado que até então não esquecera, que não lhe era indiferente. Era rever a mesma história, o mesmo argumento, mudando-lhe apenas os protagonistas. Era sentir-se desprezada. Sentia que ser votada à ignorância era a pior das ofensas pelas quais poderia passar. Desta vez, a violência fazia-se sentir ainda mais pesada por ser inesperada. Fora apanhada desprevenida. Totalmente desarmada, sem defesas. Nunca baixava a guarda e justamente no momento em que o fizera, o golpe surgira forte e certeiro.
Muitas músicas jamais teriam o mesmo encanto, passariam agora a trazer sempre consigo uma recordação amarga. Havia palavras que não queria pronunciar nem ouvir.
Despedira-se! Se nada resultara é porque não estava destinado a resultar! Esta seria a sua verdade daqui em diante.

sábado, 12 de julho de 2014

Palavras de que gosto


labúrdia -
s. f. || (Minho) (gír.) comer à labúrdia, comer à tripa forra, comer à farta.

estapafúrdio -
Diz-se de pessoa ou coisa muito estranha; fora do comum (raciocínio estapafúrdio, pessoa estapafúrdia); ESQUISITO; ESDRÚXULO.
Diz-se do que é totalmente ilógico, incoerente; ABSURDO; DISPARATADO

terça-feira, 8 de julho de 2014

I did not die

"Do not stand at my grave and weep.
I am not there, I do not sleep.
I am a thousand winds that blow,
I am the diamond glints on snow.
I am the sunlight on ripened grain,
I am the gentle autumn's rain.
When you awaken in the morning's hush,
I am the swift uplifting rushof quiet birds in circled flight.
I am the stars that shine at night.
Do not stand at my grave and cry,
I am not there, I did not die..."

Mary Elizabeth Frye

segunda-feira, 7 de julho de 2014

Recordando...

Noutros tempos teria já desistido de tantas tentativas que fizera para lhe dizer aquilo que pretendia na medida certa. E ainda relativamente poucos dias, os seus dedos tinham dificuldade em acompanhar a rapidez dos pensamentos e corriam, corriam sobre o teclado para não perderem pitada de tanto que havia para dizer. Sem hesitações, as palavras saltavam espontâneas a cada instante, quase sem necessidade de correcções.
Fazia agora mais uma tentativa que gostaria fosse definitiva. Queria apanhar a última ponta que ficara solta naquela sua história, e desejava tanto e tanto, que ele, ao ler a sua mensagem a pudesse achar “extraordinária” como designara tantas outras (embora naquela altura os sentimentos, a postura, o “sentir” fossem em tudo diferentes e era, por isso, fácil achar “extraordinárias” muitas coisas, todas as coisas...) Sabia, hoje, que o que quer lhe dissesse não poderia ter o mesmo encanto porque ele teria que encontrar, ao lê-la, uma melodia que ele já não escutaria entoar das suas palavras, que não chegava ao coração com o mesmo embevecimento. Tinha, porém, ainda uma esperança que ele pudesse encontrar pelo menos alguma beleza nas palavras que lhe dirigia, principalmente, e acima de tudo, que elas fossem conciliadoras.
Tentava encerrar, senão da melhor forma, pelo menos da forma possível, aquele capítulo das suas vidas. Talvez não fosse demasiado ousado dizer, daquela história de amor “suave e intensa, intensa na suavidade e suave na intensidade”.
Já de regresso ao mundo que pisavam antes de se conhecerem (sim, porque ambos tinham deixado de saber por algum tempo lidar de forma sensível e decidida com vários tipos de movimentos e rumores nos subsolos”. Ambos estiveram temporariamente ausentes numa outra dimensão, sublime, mas em nada semelhante àquela por onde caminhavam antes de se conhecerem).
Talvez não lhe tivesse sido fácil romper com o que tinham criado apesar de não poderem também já, humana, sentimental e intelectualmente manter toda aquela intensidade, tanto fervor, tamanha proximidade.
A ela, faltou-lhe frontalidade por não ter tido coragem para insistir quando as frases dele, de um dia para o outro, inesperadamente, começaram a surgir reticentes, curtas e evasivas, adiando constantemente uma qualquer explicação para qualquer coisa que ela não chegara a perceber o significado. “Desculpa se não digo mais nada hoje”, Desculpa as curtas frases” ... poucas palavras para algo que merecia muitas, desculpa, e vou ser nitidamente egoísta, desculpa mais uma vez.....”Talvez um dia haja oportunidade para comentar e desenvolver isso, e nessa altura eu falarei e peço que não leves a mal se não falo agora”.
Nele, em tudo emergia o egoísmo, retraindo-se nas palavras finais, afastando-a de si, quase como se (sabe-se lá por que razão) a empurrasse e enxotasse depois de a ter habituado a expor-se de uma forma tão aberta, sensível, como geralmente os homens, com todos os atavismos que lhes são criados, não têm facilidade em fazê-lo (e isso tinha-a enternecido tanto! Fora isso e tantas outras coisas que fizeram com que ele fosse para si uma pessoa excepcionalmente invulgar, ao ponto de tantas vezes se ter despido para ele) e, no fim, largou-a a adivinhar e a tirar conclusões, provavelmente erradas, conduzindo ao desfecho que ambos conheciam.
Teria bastado uma frase simples e ela teria sossegado, ter-se-ia afastado no mesmo instante. Ambos o sabiam que assim teria que ser.
Hoje, via claramente como o cansaço era já notório. Diversas vezes lhe dissera que partiria a qualquer momento, não o poderia prender se o seu desejo fosse voar: “Que nunca te passe pela cabeça meu Anjo que alguma vez as minhas sensações e todas estas coisas que te digo que podem parecer-te disparatadas e loucas sejam impeditivas de qualquer voo teu para um qualquer outro poiso, para uma qualquer outra gaivota, outro poeta, outras músicas, outro beijoabraçoabraçobeijo que será sempre outro, vivido de outra forma, com outra intensidade, com outra motivação com outro amor, mas com a certeza de que o que existe de sublime neste momento só poderá manter-se enquanto o for. Que nunca haja em ti causado por mim "uma asa que não voa, esmorece e cai no mar". E se o sublime for fugaz, pouco importa, a riqueza foi tanta e tanta que terá sempre valido a pena!
E ele não poderia jamais ter ideia da inveja que ela sentia naquele momento da sua capacidade de fragmentação das emoções, de cisão, de as arrumar em compartimentos estanques. Era talvez essa a grande diferença que descobrira entre eles. A sua capacidade de romper, de passar do amor à indiferença, enquanto ela ia largando aos bocadinhos....sempre a não querer deixar escapar por entre os dedos pequeninas coisas que são tão grandes para o coração, e que lhe permitiam, aos poucos, o ir habituando a soltar-se, desprendendo-se lentamente para que não sofresse tanto!.
Fora feliz com ele e por ele. A felicidade dele transparecia de todas as formas, saltava à vista em cada frase que escrevia, cada sílaba pronunciada, nos tons e tonalidades de cada tela desenhada com palavras, em todas as imagens criadas repletas de beleza e encanto. E ela agradecia-lhe profundamente cada uma de todas as palavras que lhe haviam sido dirigidas, mesmo que depois, em dados momentos, tivesse sofrido na mesma proporção.
Por um breve período, haviam-se embrenhado de tal forma que não caberia entre eles uma pena, nem uma folhinha sequer.
Relendo algumas das mensagens que haviam trocado por vezes era difícil, de imediato, distinguir qual dos dois era o autor. As palavras de ambos combinavam-se, fundiam-se, encadeavam-se. Hoje era como se repentinamente um oceano se interpusesse entre ambos.
Dias havia em que louvava o facto de ele a ter sacudido e despertado da dormência em que a encontrara, outros, que em que o amaldiçoava. Talvez isso fosse viver! E ele dera-lhe vida! Aos poucos iria certamente saber posicionar-se naquele novo ser que renascera.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Sem retorno

A última vez que a encontrei, olhou para mim, sorriu um pouco e logo de seguida com os olhos rasos de uma tristeza cavada disse-me:
- Agora tu também...Primeiro a tua mãe e agora tu...
Eu olhava-a em silêncio. Não tinha palavras de consolo.
Mais magra, mais velha. E se envelheceu de repente. Envelheceu por dentro.
- Eu venho de vez em quando. Quando posso venho. Chamo por si.
Sem parecer ouvir-me e deixando cair as lágrimas devagarinho continuava.
- Levaste o gato. Eu podia tomar conta dele.
Sabia que enquanto o gato lá estivesse eu teria que aparecer.
- Vejo o miúdo às vezes, mas tu não estás...Sinto falta dos bichos. Mesmo quando não te via sabia que estavas aqui ao lado...Sempre podíamos falar.
Quando me encontrava na rua por vezes ficávamos horas a conversar. Quase sempre me detinha em alturas em que eu estava com pressa mas faltava-me a coragem para a interromper e deixava-me ficar.
A última vez que a encontrei não pude permanecer. Não pude ficar a ouvi-la. Fui repetindo e repetindo para me aliviar a consciência:
- Daqui a dias eu volto, Amélia. Não tarda muito eu venho, preciso de tratar de algumas coisas. Eu venho.
Sei que vou adiar a ida, evitá-la se puder. É aquela casa que me faz mal. Aquela rua enche-me de angústias. A cidade deixa-me atarantada. O meu estômago contrai-se, as palmas das mãos transpiram, encho-me de calafrios. Revejo os anos a uma velocidade vertiginosa. As dores galgam-me, atropelam-se deixando-me combalida, tão débil quanto a Amélia. Se permanecesse...
Amélia permanecerá, de olhos tristes, vagos, no seu imenso desamparo.   

sábado, 15 de fevereiro de 2014

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Estava aqui agarrada à tradução da minha retroescavadora ao som de Chopin e, de repente, não sei por que artes (na verdade até julgo saber) veio-me à cabeça Lisa e, nesse momento, percebi o que me leva a ter uma atracção tão grande por aquele livro, quase como se fosse algo de incontornável. Nele encontro pessoas e vidas. Vidas que são efectivamente vidas e pessoas que são efectivamente pessoas, expostas de uma forma que é totalmente inédita para mim e me faz viajar ao fundo de mim e dos outros. Faz-nos falta (não sei porque uso o "nós" pois, na verdade, é a mim que me refiro). Rectifico então. Faz-me falta e faz-me bem saber que no fundo as pessoas são todas elas um tanto Lisa, Rita, Romeu e Ilda, faltando-lhes ou faltando-me a coragem para o afirmar ou quem sabe ter a percepção e a consciência ou a capacidade para admitir que o são, que o sou. Também eu sou um pouco de todos eles, com tudo aquilo que os diferencia entre si, e me diferencia deles também, obviamente, e pela razão, que já um dia constatara, que cada pessoa é única em termos mais ou menos gerais. Constato agora que já não sei bem se é efectivamente assim, ou melhor, se no fundo é efectivamente assim. A nudez de todos os personagens agrada-me tanto. A revelação da sua verdadeira essência é tranquilizante. Vê-los, ali expostos de uma forma tão genuína, sem receios e plenos de coragem para revelar aquilo que efectivamente são, a sua essência, a sua mais profunda intimidade em diversos graus e variantes, é algo que me encanta. A forma como se despem de uma forma tão genuína embora não inocente, é extraordinária por diversas razões. Gosto de os ver a nu, assumindo o que cada um deles é, sem que, contudo, percam a noção de que as roupas que toda a vida vestiram inevitavelmente influenciaram as suas condutas mas talvez não tenham alterado a sua essência, ou até, porventura, tenham contribuído para a reforçar. Serão estas roupas, talvez, algo que todos nós usamos sempre inclusive para nós mesmos, até quando nos despimos a sós e de nós para nós. Ninguém se despe totalmente para os outros, arriscaria a dizer que nem para si próprio, ou pelo menos eu nunca conheci ninguém que o fizesse, sendo que eu própria nunca o fiz nem mesmo de mim para mim; nunca tive essa capacidade ou essa coragem, como se sobrasse sempre uma qualquer peça de roupa, um adereço, invisível, mas presente, que me protegesse daquilo que inevitavelmente veria ou que sei que lá está. Na verdade, já tive percepção dessa incapacidade, contudo, de uma forma pouco consciente, ou não querendo ter consciência dela, fugindo sempre, ou sempre de fugida, como se não pudesse suportar a imagem que o espelho reflectiria de mim. Na verdade, tinha noção que a nudez que partilhamos com os outros é sempre e apenas uma meia nudez. Há partes de nós que não revelamos por opção, umas vezes de forma consciente, outras talvez não tanto, pelas mais diversas razões, mas a nudez tão nua e tão intima que encontro naqueles personagens é uma outra forma de nudez que pertence a uma outra dimensão de nós."

sábado, 28 de setembro de 2013

Estados de alma

...chegou a altura de também eu viver, seja lá o que isso for, onde quer que seja que me leve... ...sigo sem hesitações, lamentos. Não olho para trás, não hesito sequer, sigo...

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Conversa com o tempo....

Nem sei ao certo por que lhe digo isto...Também não sei ao certo por que me ocorreu dizer-lho...e não descobri ainda se temos que racionalizar tudo e encontrar explicações para todos os sentimentos e desejos que nos invadem (será por essa razão que há quem os ache primitivos? Pouco importa...tenho a minha própria teoria quanto a isso. Começo a entender Levinas e a questioná-lo também...).
A bomba estoirou e inicio cheia de fé a busca dos sonhos, da vida...Quanta paz, céus! Tanta esperança...E finalmente a sensação de que em breve vou refazer tudo. Vou esquecer tanto...soltar amarras...e lançar-me pelos céus em voos picados de azul. Quero tudo azul em meu redor até ao último suspiro e que enterrem as minhas cinzas debaixo de uma alfarrobeira. Aquela onde descobri que ainda ia a tempo de ser feliz, debaixo da qual espero dormitar nas tardes de Verão, longe da cidade. Já não quero que me lancem ao mar...é imenso e bravo, tão vago... Quero ficar num cantinho junto do raio de sol que me ergueu dos escombros e me aconchegará nos seus braços até que o Inverno me leve.
Não o compreendo meu caro, e talvez não seja preciso, contudo, permanecerá na minha história, nas minhas viagens e na pele que me veste. Guardo-o e sigo...

domingo, 15 de setembro de 2013

Rregresso...

Divido-me. Setembro devolve-me as rotinas, uma certa segurança, um dejá vu, e, simultaneamente, deixa-me sem saber que surpresas me reservam os dias rigidamente planeados. Agosto esgotou-me de imprevistos constantes, cansativos, de dias nunca arrumados de véspera, sempre de mala aberta aguardando o próximo poiso.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Amélia

Uma mulher sozinha que já não tem nada a perder. É assim que vejo Amélia. Amélia dos olhos tristes. Vagos, num desamparo imenso. Profundo. Caminha com andar lento, carregado de anos, de tristeza. São os pés que a conduzem porque a Amélia segue ausente. Sapatos gastos, roupa velha, amarrotada como ela. Sobe a rua, salpicada de nódoas num desleixo que não vê. Cabelo desalinhado, desinteressado da vida. Ninguém a espera e ela já não espera por ninguém. Sabe que não virão. Cada qual seguiu seu caminho. Ninguém quis saber desta mulher que viveu à sombra dos que partiram agora. Nada lhe resta. Nem o cão que deixei de ver no quintal. A companhia que sobrava quando punha a chave à porta do casarão degradado e sujo, pejado de vazios e quartos desabitados.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Cartas esquecidas

Sabes, há meses que sigo aos baldões.  Aparentemente distante e indiferente a quase tudo. Por isso, nem tenho escrito. Não encontrava nada para dizer. As palavras vagueavam, e creio que ainda vagueiam um pouco, às reboletas, sem se encadearem, dentro mim. Sentia-me incapaz de me deixar levar por elas, esbarrando numa incapacidade enervante. Sentia-as apenas como palavras soltas que iam emergindo quando olhava lá para fora ou me cruzava com alguém na rua. Surgiam como um jogo, como se a cada coisa que visse tivesse que atribuir uma palavra que rapidamente esquecia. Talvez eu quisesse que assim fosse, ou precisasse. Tem sido uma forma de existir, uma fuga à alma. Existo de esforços, não de vontades. O que gostaria que fosse não está nas minhas mãos, nelas encontro apenas a capacidade para amparar e, quando muito, tentar moldar aquilo que me atiram. Não tenho alternativa. Apanho e busco dar alguma forma, transformar para reduzir sofrimentos. Não me é permitida escolha possível.
Nesta modorra, de quando em quando, vou pensando tentando não pensar.
Quando o dia a dia me permite caio em sonos profundos. O meu único anseio é que a noite chegue. Aconchego-me debaixo do lençol e só ali me sinto verdadeiramente bem. Acontece-me, ultimamente, sentir muito frio quando a sonolência começa a entorpecer-me o corpo, e sinto que o colchão cede e me engole envolvendo-me como uns enormes braços. De repente, o meu corpo arrefece, chego a pensar que é a morte que se aproxima de mim, que me quer tocar, me perscruta. Depois volto a sentir-me inerte e confortável, sem contudo ter a certeza de ter aquecido, e julgo sem pânicos ou receios, que ela terá talvez julgado que não chegou ainda o momento de me pegar na mão e me levar. Quando estou prestes a adormecer novamente a minha barriga se contrai. É uma sensação estranha e ao mesmo tempo agradável que se repete um sem números de vezes. É uma espécie de embalo e assim adormeço. Depois, só volto a dar por mim de manhã. Sonho toda a noite. Quase sempre os sonhos se repetem por isso sei que tenho  questões pendentes comigo. Por isso, sei também que, em parte, são elas que me impedem de escrever e me mantêm nesta inércia como se navegasse dentro de mim sem um rumo, deixando seguir os dias ao sabor de nada. Vou-me embrulhando nas noites em busca de um falso descanso.  Raramente acordo revigorada e logo de novo desejo que a noite se apresse e desça sobre mim causando-me arrepios e contrações  nos músculos da barriga numa espécie de brincadeira.

domingo, 3 de fevereiro de 2013

"Por mais difícil que seja viver em sociedade, aguentamos sempre. Mesmo quando atingimos o limite das forças, ou quando pensamos que o atingimos.
Há sempre um limite maior que conseguimos suportar. Superamo-lo e respiramos fundo, acreditando que não teremos mais limites para enfrentar, que chegou o momento do descanso. Mas é nessa altura precisa, como se para demonstrar o equívoco em que caímos, que outro limite se nos apresenta, pedindo-nos um esforço suplementar.
Acedemos, outra vez, na esperança de a seguir desfrutarmos da oportunidade de receber a compensação pela resistência de que fomos capazes. É a ocasião em que não podemos evitar a certeza de que atingimos o limite maior, o mais cruel, o mais demolidor.
Mas esse é o instante em que nos damos conta do surgimento de mais um limite e da necessidade de continuar a suportar um peso que não deixa de crescer.
Por fim, sucumbimos sem forças, conscientes de termos atravessado as provas mais duras. É então que, para lá dos limites conhecidos, surge ainda um outro limite, que até nem parece sê-lo, tal o seu aparente despropósito e destempo, mas que, em última instância, não pode ser outra coisa senão limite.
É o momento em que já nem reagimos, já nem temos alento para nos opor a uma gota de água que seja. Olhamos, aguardando o que virá, sem submissão."
Eduardo Brum

domingo, 20 de janeiro de 2013

Quando Eu For Pequeno

 Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria, in "O Livro Branco da Melancolia"

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Um anjo da guarda

Sabia que eu atravessaria a rua arrastando os pés, como cão por baraço, de ombros vergados.  Só uma pessoa me movia para que me lançasse naquele momento que me esperava, sem certezas do que encontraria. Tudo poderia decorrer tanquilamente ou azedar caso os disparos viessem certeiros, atingindo o meu único ponto fraco. Aí eu sabia que nem a minha brutal largura de costas me valeria. O meu autodomínio, a contenção, far-se-iam em mil cacos em segundos e a minha boca soltaria tanto que tenho calado.
Respirei fundo. Afinal seriam apenas umas horas e uns valentes tragos de vinho deixar-me-iam mais paciente, envolveriam numa certa dormência as expectativas e o receio de que tudo descambasse.
A dada altura levanto-me da mesa. Precisava de um cigarro. Abro a mala e pego no telemóvel num gesto irreflectido. Uma mensagem. Alguém pensava em mim. Alguém que durante o seu jantar, tranquilo, no seio da sua família feliz, se recordara de mim.
Uma frase curta que me fez saber que também eu estava ali entre eles, nos seus pensamentos. E foi como se uma estrela brilhasse mesmo diante dos meus olhos enquanto contemplava o céu na varanda onde fora esfumaçar e tomava fôlego para o segundo "round" daquela empreitava que se demorava como se os ponteiros do relógio, mais ébrios do que eu, não pudessem arrastar-se mostrador abaixo.
Respondi, apenas, na emoção que me atacava ameaçando um choro que não podia soltar:
- És o meu anjo da guarda.