domingo, 20 de janeiro de 2013

Quando Eu For Pequeno

 Quando eu for pequeno, mãe,
quero ouvir de novo a tua voz
na campânula de som dos meus dias
inquietos, apressados, fustigados pelo medo.
Subirás comigo as ruas íngremes
com a certeza dócil de que só o empedrado
e o cansaço da subida
me entregarão ao sossego do sono.

Quando eu for pequeno, mãe,
os teus olhos voltarão a ver
nem que seja o fio do destino
desenhado por uma estrela cadente
no cetim azul das tardes
sobre a baía dos veleiros imaginados.

Quando eu for pequeno, mãe,
nenhum de nós falará da morte,
a não ser para confirmarmos
que ela só vem quando a chamamos
e que os animais fazem um círculo
para sabermos de antemão que vai chegar.

Quando eu for pequeno, mãe,
trarei as papoilas e os búzios
para a tua mesa de tricotar encontros,
e então ficaremos debaixo de um alpendre
a ouvir uma banda a tocar
enquanto o pai ao longe nos acena,
lenço branco na mão com as iniciais bordadas,
anunciando que vai voltar porque eu sou pequeno
e a orfandade até nos olhos deixa marcas.

José Jorge Letria, in "O Livro Branco da Melancolia"

2 comentários:

  1. "Quando eu for pequeno, Mãe..."
    Isto é um discurso fetal, de dentro do útero?
    Não entendi nada.

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    1. Ó Hesseherre...é poesia e na poesia e na imaginação dos homens vale tudo. Entendo como um misto de desejo de ser pequenino de novo e saudades do tempo de criança.
      Não será de certa forma o envelhecimento um regresso à infância como se atingido o fim de um caminho, voltássemos a percorrer o caminho inverso até ao antes do começo de nós?

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